Lothar Charoux

sobre o artista

Texto de Maria Alice Milliet publicado pelo Instituto de Arte Contemporânea no catálogo de sua exposição Lothar Charoux. Razão e Sensibilidade, realizado em 2014.

Lothar Charoux (Viena, 1912 – São Paulo, 1987) pertenceu ao grupo de pioneiros que em 1952 lançou em São Paulo o manifesto Ruptura, cujo verso vinha escrito em vermelho: A obra de arte não contém uma idéia, é ela mesma uma idéia. Ao negar a arte cópia da realidade em favor da arte concreta, esse postulado produziu um corte radical em relação à tradição figurativa. Na prática, a introdução dos princípios construtivos na arte brasileira constituiu uma revolução estética cujos efeitos chegam até nossos dias. Do campo restrito da arte, a estética construtivista se estendeu a produtos gráficos como jornais, revistas, cartazes, livros e etc. e ao design de móveis, luminárias e objetos utilitários em geral.

Para Charoux, mais que um ato de rebeldia, a adesão aos elementos fundantes do discurso prático – linha, forma, cor – veio a ser realização de uma vocação. Em sua obra, inicialmente expressionista, tudo se reduziu na arte puramente geométrica.

Trabalhando na horizontal – com o papel sobre a prancheta, à maneira dos arquitetos – ele privilegiou o desenho feito à tinta nanquim ou guache sobre papel, traçado com tira-linhas. Com notável economia de meios, ele se exercitou na prospecção do espaço bidimensional, optando muito frequentemente pelo fundo negro e pela posição vertical do suporte. A exploração das possibilidades da linha sobre o plano resultou num repertório gráfico que se distingue pela elegância e pela leveza das soluções.

Inicialmente de base cartesiana, seu desenho evoluiu para a representação de figuras geométricas construídas por feixes de linhas de alto potencial dinâmico e luminescente. Sem temer a ambigüidade das articulações gráficas, Charoux se dedicou à exploração de fenômenos óticos como a ilusão de profundidade e de volume, a simulação da refração luminosa, a vibração cromática, os efeitos cinéticos, as cintilações...todos construídos a partir de um grafismo preciso e sensível, em que predomina o contraste entre o branco e o preto, ainda que em outros trabalhos demonstre o domínio da cor, como pintor experiente que era.

A exploração do cinetismo virtual foi comum a uma geração de artistas da América Latina que aderiu aos princípios construtivos. Com a intenção de superar o geometrismo quase acadêmico praticado na década de 1950, muitos deles buscaram os efeitos óticos e o cinetismo, tendência conhecida internacionalmente como op art. Nos anos 1970, a obra de Charoux se aproxima das transcromias de Cruz-Diez e dos relevos de Jesus Soto.

Enquanto os venezuelanos se encaminharam para soluções ambiciosas, cada vez mais técnicas, Charoux prosseguiu sua pesquisa, mantendo a irregularidade quase imperceptível do traço feito a mão e assim retendo a qualidade vibrátil e o calor humano de sua geometria.

Seu trabalho nunca se apresenta como jogo mecânico ou frio, nem se torna repetitivo por mera conveniência. Ao insistir nas múltiplas variações a partir de uma mesa estrutura compositiva, ele comprova a existência de um sem-número de combinações possíveis. A ideia da combinatória está presente em seus painéis multicombináveis. Cabe mencionar que a participação do observador sempre esteve no horizonte do artista. Daí ele permitir que os módulos sejam ordenados conforme o gosto de quem os manipula. Isso vale para os painéis de azulejos e outros. Infelizmente, a maioria de seus projetos para murais não foi realizada por falta de compreensão dos possíveis encomendantes, quando, no Brasil, a arte concreta ainda causava estranheza.

Os chamados tortinhos são a criação mais emblemática de Charoux.Nessas composições, o equilíbrio se dá quando a linha inscrita no quadro fica perpendicular ao piso, ainda que o próprio quadro fique torto na parede. Em exposições houve quem procurasse “endireitar” a obra, o que o artista interpretou como um modo de o público participar. Depois dessa ousadia e em plena maturidade artística, Charoux partiu para a reprodução máxima do desenho, tomando-o em sua essência: a linha. Surgiu então o quadro estruturado por uma única vertical, elemento que, para o artista, dá sentido à composição, nada mais sendo necessário. A beleza da redução ao essencial era para ele um acontecimento emocionante: “Dizem que geometria é um negócio frio. Pois eu fervo quando traço uma linha. Quando consegui fazer uma obra com um traço só, fiquei literalmente alucinado”.

Por fim, uma palavra sobre os múltiplos. Charoux de dedicou-se à serigrafia em séries que ilustram muito bem as questões que o preocupavam. Pelo baixo custo unitário, era uma forma de democratizar a arte. Com a mesma intenção, criou objetos experimentais, que podem ser vistos como protótipos de edições que não aconteceram. A ideia era desenhar peças que pudessem ser produzidas industrialmente. Então nesse caso os objetos móveis, os cubos decorados, os triângulos componíveis, o relógio, o prato de metal gravado etc., além dos azulejos.

Sua criação sofreu as contingências de seu tempo e lugar. Um mercado de arte incipiente e ainda muito apegado a valores tradicionais e uma indústria pouco interessada em por em produção o design brasileiro, limitaram a expansão de sua arte. Charoux, porém, resistiu. No dizer de Mário Pedrosa, “esse artista concreto guarda da escola o rigor e a invenção; do artista em geral, sem qualquer escola, a sensibilidade da pessoa humana e autêntica, a despretensão, o humor’.

Lothar Charoux: razão e sensibilidade. Maria Alice Milliet (curadoria); Kevin Mathewson (tradução). São Paulo: Instituto de Arte Contemporânea – IAC, 2014.

Lothar Charoux